quarta-feira, 3 de novembro de 2010

OVNIs e vinhedos

Em 28 de outubro de 1954 o então prefeito de Châteauneuf-du-Pape, Lucien Jeune, promulgou um decreto municipal que proibia o sobrevôo e o pouso de discos voadores (cigares volants) nos vinhedos da região.

Em junho deste ano o jornal francês Le Post contactou a prefeitura da cidade, e apurou que o decreto continua em vigor.

O texto original do decreto:

Article 1er. - Le survol, l'atterrissage et le décollage d'aéronefs, dits soucoupes volantes ou cigares volants, de quelque nationalité que ce soit, sont interdits sur le territoire de la commune.
Article 2. - Tout aéronef, dit soucoupe volante ou cigare volant, qui atterrira sur le territoire de la commune, sera immédiatemet mis en fourrière.
Article 3. - Le garde-champêtre et le garde particulier sont chargés, chacun en ce qui le concerne, de l'exécution du présent arrêt."



Um renomado vinicultor norte-americano chamado Randall Grahm, dono da vinícola Bonny Doon não deixou escapar a piada, e em 1984 criou o Le Cigare Volant, um vinho feito a partir de varietais típicas de Châteauneuf-du-Pape como a Grenache e a Mourvèdre. Segundo ele é uma homenagem, e não uma cópia dos famosos franceses. É um vinho que tem recebido boas notas da crítica especializada.

O rótulo mostra um disco voador pairando ameaçadoramente sobre um vinhedo.

Mas a brincadeira com os franceses não parou por aí. Grahm lançou um segundo vinho chamado Old Telegram, uma referência ao famoso Vieux Télégraphe do Rhône.

O Le Cigare Volant e o Old Telegram são os dois vinhos top da Bonny Doon e no Brasil são importados pela Vinci .

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"The Definition of a Gentleman"

"The Definition of a Gentleman" by Cardinal Newman, from The Idea of a University, a series of lectures given in Ireland, 1852.

-------------------------------------------------------------------------------

Hence it is that it is almost a definition of a gentleman to say that he is one who never inflicts pain. This description is both refined and, as far as it goes, accurate. He is mainly occupied in merely removing the obstacles which hinder the free and unembarrassed action of those about him; and he concurs with their movements rather than takes the initiative himself. His benefits may be considered as parallel to what are called comforts or conveniences in arrangements of a personal nature; like an easy chair or a good fire, which do their part in dispelling cold and fatigue, though nature provides both means of rest and animal heat without them. The true gentleman in like manner carefully avoids whatever may cause a jar or a jolt in the minds of those with whom he is cast --- all clashing of opinion, or collision of feeling, all restraint, or suspicion, or gloom, or resentment; his great concern being to make every one at his ease and at home. He has his eyes on all his company; he is tender towards the bashful, gentle towards the distant, and merciful towards the absurd; he can recollect to whom he is speaking; he guards against unseasonable allusions, or topics which may irritate; he is seldom prominent in conversation, and never wearisome. He makes light of favors while he does them, and seems to be receiving when he is conferring. He never speaks of himself except when compelled, never defends himself by a mere retort; he has no ears for slander or gossip, is scrupulous in imputing motives to those who interfere with him, and interprets everything for the best. He is never mean or little in his disputes, never takes unfair advantage, never mistakes personalities or sharp saying for arguments, or insinuates evil which he dare not say out. From a long-sighted prudence, he observes the maxim of the ancient sage, that we should ever conduct ourselves towards our enemy as if he were one day to be our friend. He has too much good sense to be affronted at insults, he is too well employed to remember injuries, and too indolent to bear malice. He is patient, forbearing, and resigned, on philosophical principles; he submits to pain, because it is inevitable, to bereavement, because it is irreparable, and to death, because it is his destiny.

If he engages in controversy of any kind, his disciplined intellect preserves him from the blundering discourtesy of better, perhaps, but less educated minds; who, like blunt weapons, tear and hack instead of cutting clean, who mistake the point in argument, waste their strength on trifles, misconceive their adversary, and leave the question more involved than they find it. He may be right or wrong in his opinion, but he is too clear-headed to be unjust; he is as simple as he is forcible, and as brief as he is decisive. Nowhere shall we find greater candor, consideration, indulgence: he throws himself into the minds of his opponents, he accounts for their mistakes. He knows the weakness of human reason as well as its strength, its province and its limits.

If he be an unbeliever, he will be too profound and large-minded to ridicule religion or to act against it; he is too wise to be a dogmatist or fanatic in his infidelity. He respects piety and devotion; he even supports institutions as venerable, beautiful, or useful, to which he does not assent; he honors the ministers of religion, and it contents him to decline its mysteries without assailing or denouncing them. He is a friend of religious toleration, and that, not only because his philosophy has taught him to look on all forms of faith with an impartial eye, but also from the gentleness and effeminacy of feeling, which is the attendant on civilization.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A tetralogia - 2010

Depois de 10 anos a Metropolitan Opera volta a montar as quatro óperas de Wagner que compõe a tetralogia "O Anel dos Nibelungos". As óperas são O ouro do Reno (Das Rheingold), A Valquíria (Die Walküre), Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses (Götterdämmerung).

Na melhor linha do romantismo alemão é uma obra monumental, baseada em Das Nibelunglied, uma coletãnea de antigas lendas da mitologia germânica. A música trancende qualquer coisa feita até então (e talvez desde então), e a montagem de Robert Lepage é ousada, sem ser modernosa ou alternativa.



Vale a pena conferir. Das Rheingold está em cartaz em outubro e Die Walküre estréia em abril.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Rumo ao grunhido


Em agosto de 2008 o escritor americano Nicholas Carr escreveu um artigo muito interessante para a revista Atlantic Magazine sob o título “Is Google making us stupid?”. Não escrevi aqui na época, mas achei o artigo muito interessante, e o remeti por email a diversos amigos. Nele Carr discutia como a nossa forma de ler – e de pensar - está sendo afetada pela internet.

A leitura (e a pesquisa0 online é essencialmente diferente da forma tradicional, na medida em que saltamos de referência em referência, lendo apenas algumas linhas de cada texto, em busca do que achamos ser a idéia central. Este processo evidentemente falho, e esquecemos boa parte do que “lemos” passados poucos minutos.

O teórico Marshall McLuhan (aquele mesmo dos 15 minutos de fama e do “the media is the message” escreveu, lá nos anos 60 que o veículo (media) não é apenas um canal passivo para o transporte da informação, mas na verdade molda a forma como a mesma é absorvida e processada. Em outras palavras, o veículo molda a nossa forma de pensar. E é exatamente para isso que Carr chamava a atenção.

Agora Carr levou a questão um passo adiante e lançou o livro “The shallows: what the internet is doing to our brains”. Já comprei o meu em versão digital na Amazon e baixei para o meu Kindle. Prometo comentar assim que tiver lido.

Coincidentemente, ou não, o NY Times de 22 de agosto traz o seguinte depoimento de Nicholas Negroponte: “Adoro o meu Ipad, mas minha habilidade para ler qualquer narrativa mais longa de certa forma desapareceu, pois sou continuamente tentado a verificar meu email, a buscar alguma palavra ou simplesmente sair clicando.” (Leia aqui o artigo)

Bem falou José Saramago, ao comentar o Twitter, onde as mensagens são limitadas a 140 caracteres: “Mais um passo em direção ao grunhido”.

É o grunhido, a imbecilização, que está tomando conta da nossa sociedade tornando as conversas instigantes e inteligentes cada vez mais raras.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A vida que vale a pena

Num evento de administração realizado no ano passado tive a oportunidade de assistir a uma palestra do filósofo Clóvis de Barros Filho, professor da USP. Com estilo característico e peculiar, ele fez uma divertida digressão sobre alguns conceitos fundamentais da filosofia, como vida, moral e esperança. Recentemente encontrei no youtube uma série de 3 vídeos desse professor, discorrendo sobre “o que é uma vida boa?”.

Essa é uma das indagações mais antigas da humanidade. Sócrates já se ocupava dessa questão, que também interessou a todos os principais filósofos, ao longo dos séculos.

Nos últimos tempos o conceito de uma vida plena e bem sucedida confundiu-se com uma impossível combinação de sucesso profissional, social, financeiro, familiar, para não falar em fama, beleza, carisma, cultura, reconhecimento, enfim, um coquetel sobre-humano de virtudes, evidentemente inalcançável. A angústia de ficar aquém desse ideal inatingível abriu as portas para uma avalanche infindável de manuais de auto-ajuda, todos prometendo uma receita fácil e infalível para uma vida boa.

Em sua aula, o professor Clóvis conclui que a vida que vale a pena é aquela onde há escolhas. A liberdade plena de escolher, e a consciência disso, enriquecem a experiência da vida.

Confira aqui as 3 partes dessa aula:

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:

sexta-feira, 30 de julho de 2010

The Golden Apples of the Sun

Quando eu estava na faculdade, gostava de velejar e acompanhava as notícias das regatas ao redor do mundo. Lembro bem da edição de 1979 da Admirals Race, marcada por uma tempestade que vitimou dezenas de velejadores. nesta regata havia um barco irlandês, que trazia uns belos versos pintados na popa, justificando o seu nome, "Golden Apple of the Sun". A legenda foto explicava que eram versos do poeta irlandês William Butler Yeats, mas custei muito, alguns anos, até finalmente descobrir o nome e poder ler o poema completo.

É um poema bonito, que de certa forma exprime a nossa eterna busca pela beleza e pela sabedoria. Como não achei nenhuma tradução em português boa, cometi o pecado de fazer minha própria versão livre, que segue logo após o original.

Apenas para esclarecer, o autor explicou que "Hazel Tree", é a árvore irlandesa da vida.



THE SONG OF WANDERING AENGUS

by: W.B. Yeats

WENT out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;

And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire a-flame,
But something rustled on the floor,
And some one called me by my name:
It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;
And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.



A Canção do Errante Aengus

W.B. Yeats

Fui até a árvore da vida,
Pois minha mente estava inquieta,
E cortei e limpei um galho de nogueira,
E prendi um fruto a uma linha;

E enquanto mariposas voavam ao redor,
E estrelas, como mariposas brilhavam,
Atirei o fruto em um rio
E pesquei uma pequena truta prateada.

Eu a coloquei no chão
E fui atiçar o fogo,
Mas algo se moveu,
E alguém me chamou pelo meu nome:
Ela havia se transformado em uma garota envolta em suave brilho
E com flores de maçãs nos cabelos
Que me chamou pelo meu nome e correu
Desaparecendo no ar, em um brilho difuso.

Apesar de estar velho de tanto errar
Por terra planas e montanhosas,
Eu vou descobrir aonde ela foi,
E beijar seus lábios, e pegar suas mãos;
E andaremos, pela relva colorida,
Colhendo, até o final dos tempos
Os frutos prateados da lua,
Os frutos dourados do sol.

Furtwängler - Ainda genial 66 anos depois


Outro dia ouvi novamente a gravação feita em 1942 da nona simfonia de Beethoven, com Furtwängler regendo a Filarmônica de Berlin. Realizada enquanto as bombas caíam na Alemanha, essa gravação é simplesmente fantásticas. Claro, as limitações técnicas são evidentes, a gravação é mono, há algum ruído e a dinãmica é limitada. Mas a interpretação é magnífica. O Adágio é simplesmente sublime, e o final é vibrante, forte.

A gravação é uma remasterização feita pelo selo japonês Opus Kura. Um registro insuperável, mesmo após tantos anos. Atestado da genialidade desse maestro, tão incompreendido e atacado no pós-guerra por ter decidido ficar na Alemanha.

O disco é difícil de achar, dei o meu de presente a um grande amigo, e tive que pesquisar muito para encontrar outro, mas valeu a pena. Para quem quiser, o número do catálogo na cdconnection.com é 1003327.