terça-feira, 8 de setembro de 2009

Cena de rua

À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son œil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

Charles Baudelaire, 1821-1867, Les Fleurs du mal

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Do grande desejo


“Alma minha, ensinei-te a dizer “hoje”, como “um dia” e “noutro tempo” e a passar dançando por cima de tudo aqui, acolá e além.

Alma minha, livrei-te de todos os recantos; afastei de ti o pó, as aranhas e a obscuridade.

Alma minha, lavei-te do mesquinho pudor e da virtude meticulosa, e habituei-te a estar nua ante os olhos do sol.

Com a tempestade que se chama “espírito” soprei sobre o teu mar revolto e expulsei dele todas as nuvens e até estrangulei o estrangulador que se chama “pecado”.

Alma minha, dei-te o direito de dizer “não” como a tempestade, e de dizer “sim” como o céu límpido: agora estás serena como a luz e passas através das tempestades.

Alma minha, restituí-te a liberdade sobre o que está criado e por criar; e quem como tu conhece a volutuosidade do futuro?

Alma minha, ensinei-te o desprezo que não vem como o caruncho, o grande desprezo amante que onde mais despreza mais ama.

Alma minha, ensinei-te a persuadir de tal modo; que as próprias coisas se te rendem: tal como o sol que persuade o próprio mar a erguer-se à sua altura.

Alma minha, afastei de ti toda a obediência, toda a genuflexão e todo o servilismo; eu mesmo te dei o nome de “trégua de misérias” e de “destino”.

Alma minha, dei-te nomes novos e vistosos brinquedos, chamei-te “destino” e “circunferência das circunferências”, e “centro do tempo” e “abóbada cerúlea”.

Alma minha, dei a beber ao teu domínio terrestre toda a sabedoria, já os vinhos novos, já os mais raros e fortes da sabedoria, os de tempo imemorial.

Alma minha, derramei em ti todo o sol e toda a noite, todos os silêncios e todos os anelos: cresceste então para mim como uma vida.

Alma minha, agora estás aí, repleta e pesada, como vide de cheios úberes, de dourados cachos exuberantes; exuberante e oprimida de ventura, esperando entre a abundância e envergonhada da sua expectação.

Alma minha, agora já não há em parte alguma alma mais amante, mais ampla e compreensiva! Onde estariam o futuro e o passado mais perto um do outro do que em ti?

Alma minha, dei-te tudo, por ti esvasiei as mãos... e agora! Agora dizes-me sorrindo, cheia de melancolia: “Qual de nós dois deve agradecer?”

Não é o doador que deve estar agradecido àquele que houve por bem aceitar?

Não será uma necessidade o dar? Não será... pena aceitar?

Alma minha, compreendo o sorriso da tua melancolia: a tua exuberância estende agora as mãos anelantes!

A tua plenitude dirige os seus olhares aos mares rugidores, busca e aguarda: o desejo infinito da plenitude lança um olhar através do céu sorridente dos teus olhos!

E na verdade, alma minha, quem te veria o sorriso sem se desfazer em lágrimas?

Os próprios anjos prorrompem em pranto vendo a excessiva bondade do teu sorriso.

A tua bondade, a tua bondade demasiado grande, não se quer lastimar nem chorar, e, contudo, alma minha, o teu sorriso deseja as lágrimas, e a tua trêmula boca os soluços.

“Não será todo o pranto uma queixa, e toda a queixa uma acusação?” Assim dizes contigo, e por isso preferes sorrir, alma minha, a derramar a tua pena, a derramar em torrentes de lágrimas toda a pena que te causa a tua plenitude e toda a ansiedade que faz que a vinha suspire pelo vindimador e pelo podão do vindimador.

Se não queres chorar, porém, chorar até o fim a tua purpúrea melancolia, precisas cantar, alma minha. — Já vês: eu, que predico isto, eu mesmo sorrio. — Precisas cantar com voz dolente, até os mares ficarem silenciosos para escutar o teu grande anelo.

Até que em anelantes e silenciosos mares se balouce o barco, a dourada maravilha, em torno de cujo ouro se agitam todas as coisas boas, más e maravilhosas, e muitos animais grandes e pequenos, e tudo quanto possui pernas leves e maravilhosas para poder correr por caminhos de violetas até à áurea maravilha, até à barca voluntária e até ao seu dono.

Ele é, porém, o grande vindimador que espera com a sua podadeira de diamante, o teu grande libertador, alma minha, o inefável... para quem só os cantos do futuro sabem encontrar nomes. E na verdade, já o teu hálito tem o perfume dos cantos do futuro, já ardes e sonhas, já a tua sede bebe em todos os poços consoladores de graves ecos, já a tua melancolia descansa na beatitude dos cantos do futuro!

Alma minha, dei-te tudo, até o meu último bem, e as minhas mãos por ti se esvaziaram: ter-te dito que cantasses foi o meu último dom.

Disse-te que cantasses. Fala, portanto, fala: qual de nós dois deve agora agradecer? Mas não; canta para mim, canta, alma minha! E deixa-me agradecer-te!”

Assim falava Zaratustra.

Der schwer gefaßte Entschluß - Beethoven, Kundera e eu


"Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a sempre parecer um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Milan Kundera ,"A Insustentável Leveza do Ser"

Este momento difícil no livro é marcado pela referência ao quarto movimento do último quarteto de cordas de Beethoven, Op 135 que o compositor denominou “Der schwer gefaßte Entschluß” (A decisão difícil). Este movimento tem duas partes um allegro, denominado : Muß es sein? (tem que ser assim?) seguido de um grave chamado Es muß sein! (tem que ser assim!)

domingo, 9 de agosto de 2009

Kindle - primeiras impressões


Meu Kindle chegou e passei essa semana em lua de mel com o novo brinquedinho. Levei comigo numa viagem a trabalho a São Paulo, carreguei para todo lado. Acho que acertei na mão ao escolher o Kindle 2 e não o Kindle DX (maior). O Kindle 2 tem o tamanho ideal para ser levado para todo lado.
Os livros que comprei ainda nos Estados Unidos estavam todos lá. E comecei a comprar mais alguns, agora do Brasil. Como minha reunião em São Paulo envolvia aspectos de cultura corporativa, baixei o Corporate Culture do Kotter e o Retiring the Generation Gap de Jennifer Deal. Passei a noite do hotel estudando os dois. Nada mais prático.

Também nessa semana criei meu primeiro ebook. Como não tinha achado uma versão Kindle para o Lettres Persane de Montesquieu, encontrei um página na web com o texto integral, salvei o arquivo html no meu computador e converti para o formato do Kindle com um soft grátis, o mobipocket. Uma vez criado o arquivo, foi só salvar no Kindle via USB (ele é reconhecido pelo Windows como um pen drive comum) e pronto. Nada mais fácil.

Também nas últimas compras incluí o livro novo do Kotter, Sense of Urgency. A vantagem de comprar com preço reduzido, e sem ter que pagar frete é enorme.

Não poderia estar mais satisfeito.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Variações Goldberg na Harpa



Um lançamento recente da Deutsche Grammophon despertou minha curiosidade. A Harpista Catrin Finch levou 3 anos para transcrever as Variações Goldberg de Bach para o seu instrumento. Não foi tarefa fácil, as múltiplas vozes das composições requerem técnica e talento. Nem todas as variações puderam ser adaptadas com igual sucesso, a própria artista reconhece, mas em geral o resultado foi muito bom, trazendo uma nova visão sobre essa obra tão elegante e inspiradora.

Normalmente não compraria um CD de harpa solo, mas essa releitura de Bach foi de uma felicidade incomum. Para os moderninhos, a versão digital do álbum pode ser adquirida (e baixada) do site da Deutsche Grammophon.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

It´s coming


Meu Kindle está a caminho


A Amazon baixou o preço do Kindle 2, era a deixa que eu precisava para saltar na era do livro eletrônico. Estava balançando entre o Kindle Dx e o Kindle 2, mas acabei optando pelo último, por ser mais barato e num tamanho mais conveniente.

Nunca fui adepto de ler textos longos no computador. Geralmente imprimo os pdf que quero ler com calma. E por isso esses livros eletrônicos como o Kindle não me atraíam. Isso até algumas semanas atrás, quando estava em São Paulo a trabalho e fui jantar com um grande amigo o César, que levou seu Kindle para me mostrar. Me apaixonei na hora, não tem nada a ver com as telas de lcd, é até mais gostoso de ler que um livro.

Bem, comprei o meu e por menos de 20 dólares eu recheei ele com as obras completas de Dickens, Shakespeare, Jane Austen, Poe e todos os Julio Verne em francês que sempre quis ler. Além de mais algumas coisinhas sortidas. Mal posso esperar poder carregar todos eles para todo canto. Talvez agora eu finalmente termine Bleak House.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Song of Seven


Song of Seven

Após a compra de um Ipod de 80GB no ano passado, comecei o ambicioso projeto de digitalizar todos os meus CDs. Como todo iniciante no assunto, comecei a usar direto o próprio Itunes para copiar os CDs (ripar). Bom, não demorou muito para eu descobrir uma série de irritantes clicks e outros ruídos sempre que havia algum erro de leitura no processo. Passei então a usar outro software para ripar, chamado Dbpoweramp, que lê o CD em duas passagens, e caso as leituras sejam coincidentes ainda verifica o resultado em um banco de dados, o AccurateRip. Com isso tenho certeza que o que está no Itunes é exatamente o que foi gravado no CD.


Nesse processo estou redescobrindo verdadeiras pérolas, esquecidas. Um desses CDs é uma edição japonesa de um álbum solo do Jon Anderson, vocalista do Yes, chamado Song of Seven. Músicas têm a propriedade de marcar épocas, e esse CD (na época ainda LP) era o álbum que eu ouvia quando comecei a trabalhar. O álbum é de 1980, e é composto essencialmente de canções simples e bobas. Mas, que atire a primeira pedra quem não gosta de canções simples e bobas.

“Suddenly the feeling came, I wanted Just to be with you”

Mas o que se destaca mesmo é a faixa título, no melhor estilo Yes.

Lembro-me bem das paixões da época, embaladas pela atmosfera sonhadora da música, que remete àquela hora do dia especial, onde o dia e a noite se encontram, “that time of times that comes between the lights”, a hora do sonho e da esperança.


Song of Seven (parte final):

Is it this time of day that makes me realise
The sun is coming out to shine again
Tomorrow
Tomorrow
Is it this time of day that gives you hope

Is it this time of times that comes between the light
Are there so many dreamers in this life between a moment's time
And the stairways of love
The starlight
The starlight

Telling me that there's something else to
Cling on to
Cling on to